Quando a Cracolândia vira um Parque de Diversões!

Intitulada ‘Só por hoje’, música da Legião Urbana retrata a realidade da Cracolândia, um lugar dominado por drogas e ignorado pela sociedade. #1DiaSemPedra, porém, vem para alegrar o Dia das Crianças e avisar que “Só por hoje vou me lembrar que sou feliz”.

by Henny Freitasimg_8189

Leitura colaborativa do conto ilustrado: ‘Pescador de Ilusão’. Foto: Rafael Coelho

Não se sabe quem trouxe ou atirou a primeira ‘pedra’ em São Paulo, mas acredita-se que tenha sido na segunda metade dos anos 1980s, anos marcados não só pelo caráter econômico do Plano Cruzado, de José Sarney, mas pela distribuição dessa até então desconhecida droga nas encruzilhadas periféricas da capital paulista.

Em Crack, o Caminho das Pedras, o jornalista Marco Antonio Uchôa mergulha de cabeça no universo da fumaça das pedras para revelar como pensam os que se escondem atrás de improvisados cachimbos. “Os que acreditam ter encontrado a felicidade na forma de fumaça caem na armadilha do mundo cor-de-rosa, sinalizado por um ‘tuim’ no cérebro – baque capaz de ligar todos os circuitos, todas as emoções de uma só vez. Um turbilhão rápido, voraz. Sensação que acontece apenas na primeira vez. Na segunda pedra, ela não vem. Em seu lugar, depressão, fissura, paranóia, dependência… e morte”.

O livro de Uchôa relata casos de crianças como Rodrigo, menino de rua de 13 anos de idade, que passou do consumo da cola e do esmalte ao crack. Em depoimento, o garoto diz que a rua ensina muita coisa. E indaga-se: “Vou sair daqui e ir pra onde? Ninguém quer saber de menino de rua não. Tá sujo, tá fedendo, então é ladrão”.

Esta situação se repete todos os dias em pontos isolados da cidade, mas se converge nas imediações das avenidas próximas à estação da Luz, região que ficou conhecida como Cracolândia devido à alta concentração de usuários do crack.

 

#1DiaSemPedra

Após passar toda uma manhã, tarde e noite na Cracolândia, gozo o privilégio de escrever este relato em primeira pessoa do singular. O ano é 2014. O dia, das crianças. Fui convidada por Ricardo Costa (Matilha Cultural) para participar de um evento chamado #1DiaSemPedra, dia em que, pelo terceiro ano seguido, Marcos Machado (Burrinho Produções) conseguira convencer os moradores da Cracolândia a não comercializar droga na região. Por isso, ‘Só por hoje’***, a Cracolândia se transformou em um parque de diversões. E tão pouco foi necessário para arrancar um sorriso daquelas crianças.diacriancas_cracolandiai

Cirandando. Foto: Luciano Maekawa

Regado à arte, brinquedos e brincadeiras, a ideia do ‘dia sem pedra’ é sempre a mesma: transmitir uma mensagem consciente aos moradores através da música e fazê-los esquecer de que ‘só por hoje’ não haverá crack.

Chegamos, chegando. Há dois anos, o Dia das Crianças fazia-se dia como hoje: o sol se abria, o dia sorria e as crianças se deliciavam na piscina de água e sabão. Também no pula-pula, durante o corre-corre e quando pinturas faziam no chão. Escolhemos um dia para brincar, sem ‘pedra’, como crianças. E fomos vistos como tais. Ciranda livre, passinho do Romano e música, muita música: tocada, cantada e falada… de coração para coração.

Nesse dia também levamos um livro interativo, co-criado e ilustrado por mim e por crianças amazônicas durante a Expedição Barco Iris: uma Aventura Sustentável pela Amazônia. O conto intitulado Pescador de Ilusão foi distribuído em forma de um varal vertical e lido de maneira colaborativa com as crianças da Cracolândia. As ilustrações estavam dispostas dentro de um domo geodésico, feito de bambu e mangueira de bombeiro reaproveitada e levado ao local como exemplo de uma construção sustentável de baixo custo.img_8198

Leia para uma criança! Foto: Rafael Coelho

Considerando que toda ação parte de uma intenção, ‘só por hoje’ percebi que uma andorinha só, quando quer, faz verão –muito verão–, traz alegria e promove atitudes sustentáveis. Andorinhas como Marcos, Ricardo e Marina; Zulu, Alexandre e Sisal; Sombra, Luciano, Débora… e tod@s aquel@s que estivemos lá presentes, recebendo o maior presente de todos: o dom de saber doar.

Uma atitude sustentável sem contrapartidas, que mostra a dedicação, o carinho e o respeito às crianças em situação de rua, em suma maioria, expostas à marginalidade e às drogas. Só por hoje um dia sem pedra é igual a um dia a mais para a vida. E que venham outros dias, feitos dia como esse!

 

*** ‘Só por hoje’, faz parte de uma meditação diária intencionalmente proclamada por usuários de álcool e drogas em tratamento, como esta: “Só por hoje não vou ter medo. Muito em especial não vou ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá”.

 

Comments

  • Nena

    Fiquei emocionada, parabéns!

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