Mim ser Permacultor!

Cinco dos 300 povos originários brasileiros participaram do primeiro curso de Permacultura voltado às questões indígenas do país. Uma semana depois, 23 etnias brasileiras entrariam na arena para desfilar seus cocares e penachos ao som de chocalhos e os mais variados instrumentos nativos. Ao lado deles, delegações de outros 22 países. Na plateia, a presidente Dilma Roussef. O evento? Os Primeiros Jogos Mundiais dos Povos Indígenas.

by Henny Freitas

PDC_TOAula prática de bio-construção com super adobe. Foto: EarthCode Project

E não por acaso Tocantins foi o Estado escolhido para sediar ambos os encontros. De um lado, uma população aproximada de 10 mil indígenas dividida em sete etnias vive em 82 aldeias espalhadas em municípios de todas as regiões do Estado. Do outro, mais de R$ 20 milhões sendo injetados na economia da capital (Palmas) durante a realização da Copa do Mundo indígena. E mais R$ 10 milhões serão investidos depois, em mais um Complexo Esportivo.

Enquanto a bola rola, 73 milhões de hectares do bioma Cerrado estão sendo engolidos pelo avanço da nova fronteira agrícola na macro-região que sedia os jogos. Além do Tocantins, os estados do Maranhão, Piauí e Bahia estão ameaçados. Por lá existe um mega projeto do agronegócio que, se não barrado, terá um enorme impacto destrutivo sobre o meio ambiente, incluindo comunidades tradicionais e povos indígenas. Dentro do chamado MATOPIBA existem 28 terras indígenas, 34 quilombos, 865 assentamentos e 42 Unidades de Conservação.

 

A Força de Tupã

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No topo da Whipala a caminho de Tocantins. Foto: Henny Freitas

A convite do coletivo Guardiões da Mãe Terra aceitei com alegria o chamado para ser uma das facilitadoras do curso e consegui um patrocínio para levar comigo uma liderança Guarani da Aldeia do Jaraguá. A Tekoa Ytu é uma das três aldeias indígenas localizadas na capital de São Paulo e a menor terra indígena já demarcada no Brasil. São 1,7 hectares que abrigam cerca de 600 pessoas.

Tupã Mirim e eu pegamos carona na Whipala, uma ecoaldeia itinerante em atividade há 20 anos na América Latina que tem a missão de levar magia e educação ambiental por onde passa. Meu convidado transparecia ansiedade para conhecer de perto essa tal Permacultura. “Será um novo jeito de discussão sobre a questão ambiental para o meu povo que já tem esse conhecimento, mas muitas vezes não pratica. Com isso vamos ver se a gente consegue (re)acordar o que está adormecido”, antecipou.

Após rodar 1950 quilômetros e passar por 33 cidades, finalmente chegamos a Palmas. Fomos recebidos pela Aldeia da Paz, onde tivemos contato com uma vida mais holística, desde uma alimentação vegana ao descarte das nossas fezes, decompostas em banheiros secos. A adaptação da grade curricular e a adoção de uma metodologia participativa para as trocas de saberes ancestrais e as tecnologias sociais entre indígenas e permacultores trouxeram aprendizados incríveis. Aproveitamos o ensejo dos jogos indígenas para fazer articulações com lideranças de diversas etnias a fim de promover a recém criada AWIRI – Aliança Multiétnica de Permacultura –, resultado da apresentação do exercício do grupo de design social consentido durante o curso.

Mas, enquanto uma disputa de arco-e-flecha acontecia, a garantia dos direitos indígenas era ameaçada. Com isso em mente, nos tornamos coadjuvantes de uma ocupação temporária na arena onde os jogos estavam sendo realizados. Juntos com os parentes, paralisamos a programação por uma noite. Éramos centenas de pessoas manifestando nossa indignação com relação à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que transfere a decisão sobre demarcação de terras indígenas e quilombolas do Ministério da Justiça para o Congresso Nacional.

 

Não à PEC 215!

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Manifestantes durante ocupação na arena dos jogos. Foto: Henny Freitas

Conceituar o índio vivendo em harmonia com a natureza, caçando com arco-e-flecha e pescando em um córrego limpo é retroceder essa realidade para antes da invasão dos Portugueses. Quinhentos e dezesseis anos depois, a realidade é outra. Ilhados em terras demarcadas por um Estado opressor, os índios do século XXI lutam contra um extermínio programado, já que a atual conjuntura política desenvolvimentista do Congresso Nacional é formada por uma bancada subserviente aos interesses do agronegócio, transgênicos, mineradoras, hidrelétricas, especulação territorial, lobby’s farmacêuticos, imposições religiosas e sexistas e conluios armamentistas.

Confusos, alguns indígenas nos perguntavam se as iniciais do acrônimo PEC se referiam a um “Programa de Educação e Cultura” voltado aos povos originários. Quem dera essa fosse uma verdade e não fizesse parte somente do imaginário ancestral! Escrevemos um Manifesto em Defesa da Vida e da Mãe Terra, contra a PEC 215 e o extermínio dos Povos Indígenas e das Populações Tradicionais do Brasil. Confira aqui: Carta de Palmas

Apesar dos interesses políticos e midiáticos por trás de um evento desta grandeza, a integração cultural, a troca de informações, tradições, costumes e os próprios jogos trouxeram um colorido todo especial para os nossos olhos e uma música entoada pelos mais variados idiomas aos nossos ouvidos. Uma vontade de querer se comunicar com todos os povos lá representados e uma sensação de conforto ao saber que a Mãe Terra ainda possui seus guardiões originários.

Tupã Mirim estava certo. Esses dias lá vividos nos fizeram perceber que precisamos religar nosso cordão umbilical com a Mãe Terra para mergulhar no universo alternativo da Permacultura e nas diversas maneiras de melhorar a gestão ambiental nas terras dos povos nativos que continuam sofrendo alterações em sua configuração original devido à proximidade com os centros urbanos e às mudanças no estilo de vida, relacionadas hoje ao consumo e uso de materiais não degradáveis, tratando assim da integração e readaptação resiliente nas biorregiões que estão inseridos.

 

Extra Extra Extra!

Permacultura ganha destaque na mídia brasileira. Confira!

 

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