Bandeirantes de ontem. Ruralistas de hoje!

No decorrer da história brasileira, os povos indígenas foram vítimas de inúmeros enganos e covardias, que tinham o intuito de dominá-los ou exterminá-los. Entre várias estratégias, era muito comum os fazendeiros oferecerem a um povo que desejavam exterminar, uma festa com muita comida e presentes, para atacá-los traiçoeiramente.

by Fernando Schiavini*

imageFinal de campeonato: Xerente vence a Bolívia nos pênaltis. Foto: Henny Freitas

Muitos povos indígenas são isolados por opção. São remanescentes dessas covardias históricas, usadas para “desinfestar” os sertões, pelos que se julgam “civilizados”.

Os ruralistas estão reproduzindo direitinho a história de ocupação deste país, com a aprovação da PEC-215. Prepararam uma grande festa, esse indefectível “Iº JOGOS MUNDIAIS DOS POVOS INDÍGENAS” e desferiram uma profunda facada em todos os povos indígenas do Brasil, seus aliados e simpatizantes. Típico de uma elite rural originária das primeiras caravelas colonizadoras europeias, que permanece na mentalidade medieval, de avançar a colonização a qualquer preço, usurpando os territórios indígenas à força nas suas fronteiras e reinventando sorrateiramente a legislação na corte.

Seguem, desembestadamente, a dominar, matar e destruir, sem atentarem ao que acontece ao planeta.

Fruto da Resistência

Os povos indígenas preservam cerca de 13% do território brasileiro. Essa preservação é visível para quem viaja pelo país ou recorre aos programas de mapas na internet.

Verdadeiras ilhas de verde em meio à devastação, as terras indígenas atualmente demarcadas e homologadas são frutos da resistência e da conquista dos povos indígenas e seus aliados em mais de 500 anos. Os indigenistas governamentais, as entidades da sociedade civil, a igreja católica através do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), fizeram parte do movimento por essas conquistas nos últimos 40 anos, perpetuadas, segundo se acreditava, na Constituição de 1988.

Obviamente a coisa não ficará assim. A causa indígena atinge milhões de simpatizantes no Brasil e no mundo. Quanto mais a crise se espalha e aprofunda no mundo capitalista, mais pessoas voltam os olhos para os povos tribais, que continuam preservando suas tradições e a natureza, pois isso é intrínseco às suas culturas.

Esse é o problema: o mundo mudou e os “caras” do agronegócio não perceberam. Não se trata de armas, mas de consciência.

Mas, aqui pra nós, como são ingênuos muitos dos nossos parentes!

Deixarem-se atrair a esses tais jogos indígenas, que são realizados há quase 15 anos, sem terem levado nenhum benefício prático às aldeias. Só vitrine. Só romantismo, realimentado constantemente pela grande mídia.

Está-se deixando passar uma oportunidade fantástica, com a realização das olimpíadas no Brasil em 2016, de se promover, de fato, os esportes tradicionais e não tradicionais nas aldeias indígenas. Muitos dos esportes mostrados durante os jogos estão em vias de desaparecimento.

Além disso, muitos esportistas indígenas poderiam estar competindo em níveis regionais, nacionais e internacionais, se houvesse incentivo e acompanhamento técnico. O esporte nas aldeias pode representar uma ótima ferramenta de inserção de jovens na modernidade, sem perda das características culturais.

O mínimo que os organizadores desses jogos, que se dizem indígenas, deveriam fazer, é ordenar a sua imediata paralização. Se não o fizerem, serão acusados eternamente pelos seus parentes, de traidores.

 

* Fernando Schiavini é indigenista, com mais de 40 anos de atuação junto aos povos indígenas.

 

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