A LAMA E O FOGO QUE A MÍDIA NÃO QUER VER

Eu ainda sou daquelas pessoas que lê jornal em papel. Folha e Estadão, todos os dias. Sobretudo para monitorar a hierarquização dos assuntos.

by Claudia Visoni*

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Ilustração: Rangel R. morais

Na internet tudo fica meio nivelado, mas no impresso o tamanho das letras, o tamanho das fotos e o número de páginas dado a cada matéria revelam as escolhas editoriais. Na TV (que não assisto) são os segundos dedicados a cada reportagem, a seleção dos entrevistados e das imagens.

Com o Brasil pegando fogo e afundando em lama ao mesmo tempo resolvi contabilizar a cobertura dos jornais dessa segunda-feira, 16 de novembro de 2015. Em ambas as capas (Folha e Estadão), o drama de Minas Gerais e da Chapada Diamantina quase não existem.

O “quase” é por conta de uma chamadinha mínima do Estadão para um colunista que resolveu falar da lama em vez do terrorismo. No mesmo Estadão, 5 páginas para a cobertura internacional dos atentados na França e 1/2 página para o maior desastre ambiental já ocorrido no Brasil.

Na Folha, 5 páginas para Paris e 2/3 para Mariana. Nenhuma linha sobre o incêndio na Chapada Diamantina. Nenhuma linha para contar o que sobrou da Chapada dos Veadeiros após o incêndio da semana passada.

Por que a imprensa brasileira está dando mais destaque a um problema grave ocorrido no exterior do que para um problema grave ocorrido aqui mesmo? Três hipóteses vieram à minha cabeça.

1) Não desagradar os anunciantes – Sou jornalista e sei que as redações estão reduzidas, a crise é forte para quem vive de publicidade etc e tal. Repórteres e editores muitas vezes são derrotados quando propõem pautas não muito convenientes para os interesses financeiros das empresas onde trabalham. A Vale é um grande anunciante. A exportação de commodities é um assunto que a mídia costuma embalar em muito ufanismo. Não rola muito interesse em contradizer o discurso do “Brasil que dá certo” (sic). Para completar, é mais confortável editar páginas no ar condicionado da redação, recebendo prontinhos os textos bem feitos e as fotos bem tiradas das agências internacionais.

2) Somos colonizados – Temos vergonha de nossas raízes caboclas e da cor de nossa pele. Sonhamos com closets, espaços gourmet, morar em edifício com nome de castelo europeu, fazer selfie na frente da Torre Eiffel, gastar os tubos em outlets de Miami. Queremos participar dos grandes acontecimentos internacionais para nos sentirmos mais loiros de olhos azuis. Aproveito para dar uma dica: se você quer atrair a atenção da mídia para o seu projeto, experimente dizer que você e sua turma estão fazendo algo que virou moda em Nova York, Londres, Berlim, Los Angeles, Sydney (Austrália também serve) e… Paris. Às vezes funciona. Mas se a sua rede estiver conectada com o pessoal de Nairobi, Quito e Havana, melhor não comentar.

3) A crise ambiental é uma verdade inconveniente – Al Gore acertou demais no título do seu documentário sobre mudanças climáticas. Essa história de colapso ecológico não é boa para empresas, governos, pessoas e imprensa. Gera muita angústia e questiona o consumo insano e os delírios de crescimento econômico infinito que mantêm o capitalismo rodando (e soltando fumaça). Eleitores não gostam desse assunto. Consumidores odeiam. Políticos mais ainda. Melhor fingir que não está acontecendo. Mesmo que um tsunami de lama passe embaixo do nosso nariz.

Ainda bem que vivemos numa sociedade em rede. Juntando caquinhos vamos tentando montar nossa agência de notícias e de ação colaborativa. E palmas para coletivos autônomos como o Jornalistas Livres que estão dando show na cobertura.

*Claudia Visoni é jornalista, ambientalista, ativista e mãe. Articuladora da rede Hortelões Urbanos e agricultora urbana.

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