Primavera Tupinambá

O sol brilha forte. (Re)aparecem as chuvas. Casaco, guarda-chuva e óculos de sol: tudo-junto-misturado-ao-mesmo-tempo! A primavera que já foi Árabe, hoje é Tupinambá.

by Henny FreitasTupinamba

Ancião Tupinambá. Foto: Henny Freitas

Florescem as árvores e surgem os frutos. O clima é quente. O clima é frio. O clima é seco. O clima é úmido. A lua é vermelha. A pele do índio também. Ao menos quando se pinta de urucum. Ou negra, quando a cor escolhida é o jenipapo e o carvão. Quando o faz, é para comunicar algo.

E, para fazê-lo, tem índio saindo do meio do mato botando casaco para fazer-se escutar em meio à selva de asfalto. Outros veem compartilhar as histórias de seus antepassados, as mesmas histórias de hoje, mas de mato mesmo, só o pouco que ainda resta para ser contado.

“Falar o tempo que restar”, diz uma boca carnuda de cara-pintada. Afinal, essa é a garantia do seu Direito, como Humano, manifestar. Direito Humano esse, garantido e assinado em papel timbrado. Carimbado e sancionado por um cara-pálida. Lê-se: presidente, governador, prefeito e aquele que tiver um talão de cheques em mãos. Em tempos de cartão de crédito, um efeito devastador.

Mas o índio vem por outro motivo. Vem para defender o seu Direito Humano de “zelar pela própria Natureza”. Aquela, gigante, entoada em hino nacional. Ela, a natureza, a sua casa. O seu lar. O meu (e deveria ser também o seu) Habitat Natural. E não um pedaço dela. Fatiada, desmembrada e entregue ao mercado: como já fazem com as vacas, as galinhas, os porcos, os peixes e tantos outros seres que habitam esta nossa casa comum: o Planeta Terra.

 

A Primavera já foi Árabe, agora é Tupinambá!

Tupinamba_DonaMariaDona Maria: mãe, mulher, cyberativista e Tupinambá. Foto: Henny Freitas

A lição de uma estrela que candeia a história de uma vida intensamente vivida floresce no tempo. Dona Maria faz-se novamente realidade em minha vida de uma forma mais madura, aparentando umas sessenta primaveras vividas.

Ela é cyberativista. Tupinambá também  é. Mãe, mulher e tantas outras tantas que me inspiram escutar, escutar, escutar. Ela vem de avião, acompanhada de outro ancião. Seus parentes mais jovens percorrem vários quilômetros e atravessam muitos municípios até chegar a São Paulo. Trinta (e poucas) horas depois desembarcam todos e todas em uma rodoviária ao norte da capital.

Sinto-me em casa com Dona Maria. Trocamos ideias, receitas e sorrisos. Os seus, banguelos, justificam a imposição de uma influência Ocidental arbitrária, que foi além: roubou-lhe seu idioma e suas tradições. Seus costumes e suas crenças. Sua farmácia e sua universidade. Roubou-lhe também o Direito de zelar pela sua própria casa: a Natureza.

Por alguns instantes desejo mudar o mundo a começar pela criação de uma lei: uma Declaração Universal dos Direitos da Natureza.

Que tal se a partir de agora toda empresa produtora de qualquer que seja a mercadoria fosse responsável pelos impactos ambientais causados durante todo o ciclo de vida daquele produto: da extração dos recursos ao descarte, seja o produto que for, dure o tempo que durar, por sete gerações futuras (e mais)? Que tal se toda construtora fosse impedida de destruir as áreas verdes que ainda nos restam nas cidades e que, a partir de agora, fossem obrigadas a adotar a permacultura em seu código de obras?

Na sala de tom amarelo de um alto prédio de São Paulo nos recebem como imprensa. Há pouco havíamos estado em outra sala amarelada, em outra reunião desejada. Essa, logo ao lado, com ar condicionado, em meio ao centro de prédios altos. Cobrávamos metidas políticas adotadas também havia pouco: o tempo de uma gestão.

 

A Mãe Terra chora Lágrimas Secas em São Paulo

ParqueBufalos_ArvoreSerTecArte desenvolvida por “Árvore, Ser Tecnológico”

Como responsável por decretar de utilidade pública (DUP) toda região do Parque dos Búfalos, Gilberto Kassab fez o que deveria fazer como atual Ministro das Cidades: nos receber e nos escutar “falar o tempo que restar”. E prometer o que deveria prometer ou, se comprometer: responder ao dossiê entregue a ele sobre os crimes ambientais que continuam sendo cometidos na única área verde de Cidade Ademar. Sem data certa combinada, apertou as nossas mãos e saímos de lá, de mãos lavadas, mas não beijadas.

O mesmo acontece em outras instâncias quando o assunto é a Natureza e sua exuberância. Além do Parque dos Búfalos e do Parque Augusta, existem outros tantos parques ameaçados – lê-se: as últimas áreas de respiro e pontos de sobrevivência –, tão desejados, necessários e essenciais para uma cidade (des)humana e (des)natural como São Paulo.

Enquanto, de um dia para o outro, o Direito de Zelar pelo Parque Augusta, última floresta tropical do centro de São Paulo é revogado através de um pedido de reintegração de posse, em uma área cuja matrícula assegura o livre acesso a este que é o último bosque com remanescentes de Mata Atlântica da capital – levam-se meses, anos, talvez nunca leve tempo suficiente para obter-se uma devolutiva política com relação a esta área cuja função social e, principalmente ambiental, é indispensável para a cidade.

Por ter sido fatiado e desmembrado, os atuais ‘donos’ do Parque Augusta – a incorporadora Setin e a construtora Cyrela –, consideram legítimo acabar com a possibilidade da última área verde livre de construções do centro da maior capital do Brasil e da maior metrópole das Américas, ser regenerada.

 

Desistir? Jamais!

Tupinamba_RedeNovosParques

Primeiro Ato Intermunicipal em Defesa dos Parques Ameaçados de São Paulo – Rede Novos Parques. Foto: Betina Schmid

Saí dessa reunião nem 30 minutos fazia, com aquela sensação de mãos atadas e vazias.

Se não o Ministro das Cidades, Gilberto Kassab, quem autorizou o Decreto de Utilidade Pública em várias das hoje áreas ameaçadas por um tal ‘direito de protocolo’ por parte das incorporadoras e construtoras, quem?

Se não o atual Prefeito, Fernando Haddad, quem com vontade política poderia emplacar novos Decretos de Utilidade Pública, para garantir a vida das últimas áreas verdes produtoras de recursos naturais (água e ar), essenciais para a sobrevivência humana nas cidades, quem?

Se não o atual Governador, Geraldo Alckmin, quem está secando as nossas torneiras enquanto poderia estar protegendo as nossas nascentes, quem?

Se não a atual Presidente, Dilma Rousself , quem parece estar mais preocupada em fazer da Amazônia uma grande área de pastagem para criação de gados e de monocultura de milho e soja transgênicos, quem?

Tanto você quanto eu sabemos a resposta!

A decisão: “Pare a Prensa!”, como metáfora para um: “Basta à Destruição da Vida no Planeta”, seria um respiro seguro frente às ameaças por parte do agronegócio, da privatização das áreas verdes e do mercado imobiliário que segue querendo “empreender”, desde que minimizando as áreas verdes e maximizando sua lucratividade.

Por terem protocolado um projeto destrutivo de construção em cima de nascentes, de áreas de manancial, de remanescentes de Mata Atlântica ou simplesmente das últimas áreas ainda permeáveis das cidades, as construtoras detém de um injusto ‘Direito de Protocolo’, que precisa ser quebrado imediatamente. Tivéssemos tido a oportunidade de protocolar um projeto antes deles, garantiríamos o futuro de uma vida saudável na cidade através de um projeto de preservação dessas áreas.

 

Gentrificação Arbórea 

Tupinamba_GentrificacaoArvoreaCadê a árvore que estava aqui? Pássaros pousam em postes de luz em São Paulo. Foto: Henny Freitas

Como (in)consequência política, o termo gentrificação*, ainda não reconhecido oficialmente pelo dicionário brasileiro, passou a ser mencionado e é cada vez mais executado no dia a dia daqueles que decidem por você e exercem para si o Direito à Cidade.

Já que as árvores não podem se manifestar verbalmente, obtive uma procuração para questionar por elas: “Onde se encaixa o Direito à Natureza frente ao Direito à Cidade?” Até quando o direito de construir em cima das últimas áreas verdes produtoras de água de São Paulo passarão por cima do direito dessas áreas de permanecerem lá, onde estão, sem ter que sofrer remoção, ou gentrificação arbórea?

As árvores cumprem uma função ambiental de forma gratuita: limpam o ar, produzem água e garantem nossa existência na Terra. O fato é que tanto as últimas áreas verdes urbanas quanto os mesmos índios que atravessaram de Nordeste a Sudeste para clamar SOCORRO aqui em São Paulo, estão sofrendo ameaça.

Com isso, todos perdem, menos um. Ou alguns. Esses privilegiados, entre aspas, não são àqueles por quem estávamos esperando, são àqueles antropocêntricos que sabem desempenhar bem o papel de fatiar e mercantilizar a Terra, nosso casa comum, nosso habitat natural: a Mãe Natureza. Então, pergunto: O que será quando a Primavera acabar?

 

Gentrificação: é um conceito usado para se referir ao processo de renovação de população, em que a chegada crescente de novos residentes de renda superior acaba por transformar o perfil sociocultural da área em questão. Os novos moradores introduzem costumes e práticas de consumo distintos dos tradicionais, estimulando o surgimento de negócios e elevando o custo de vida, especialmente no que se refere aos gastos com moradia, o que pressiona a saída de antigos residentes da área.

 

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