Educação cosmológica como organização social

Segundo o pensamento Bororo, indígenas que habitam o Estado do Mato Grosso, essa forma de organização social está presente tanto no plano terrestre quanto no plano espiritual e fortalece o meio entre as pessoas daquele povo para depois envolver outras culturas.

by Henny Freitas

imageFelix Rondon Adugoenau, palestrando na ULBRA, em Palmas, Tocantins. Foto: Henny Freitas

A cosmologia nativa não começa pelo discurso da comunicação da interculturalidade. Comunica, primeiramente, com o seu povo. “Acreditamos que, com isso, nosso povo seguirá nossa culturalidade de forma ética. Do contrário, nossas crianças vão querer sempre ser outras crianças, deixando nossa cultura, língua e costumes de lado”, explana Felix Rondon Adugoenau, coordenador da Coordenadoria de Educação Escolar Indígena – CEI/SEDUC – MT.

Mestrando pela Universidade Federal de Mato Grosso, Felix alerta: “Se não cuidarmos da nossa cosmologia original a educação institucionalizada se tornará um perigo com relação à nossa visão de mundo.”

Para “nós” não existe homem nem mulher. Existe aquele ou aquela que fica ao lado de. “É aquele ou aquela que faz a conexão entre a mestra da semente e a própria semente. E a educação originária vem para enraizar questões como essa.”

Ao irem às escolas tradicionais ocidentais, as crianças são obrigadas a sentar na cadeira com os pés no chão e as mãos nas carteiras, afastando a forma nativa de aprender. As crianças Bororo, por outro lado, sentam-se em círculo, na posição de lótus, no chão, conectando-se com a terra e reconhecendo o igual no outro. Nesse processo, não existe diferença entre o professor e o aluno; ninguém se posiciona na frente ou atrás de ninguém e todos e todas são incluídos no processo.

Por não saber respeitar esses princípios básicos da educação tribal, segundo Felix a educação intercultural ainda não existe no Brasil. “Aqui nos Jogos Mundiais vejo muitos jovens e adolescentes com corte de cabelo no estilo do Neymar. Não me considero conservador, mas falo de uma identidade que está perdendo sua cultura”, preocupa-se.

“Existem diferenças entre ser conservador e ser reacionário. Segundo Paulo Freire, não devemos ser nem um nem outro. Devemos ser revolucionários. E é isso que busco: uma reeducação revolucionária para que a identidade do meu povo não seja perdida”, conclui o palestrante ao som dos aplausos dos alunos da ULBRA, Universidade Luterana Brasileira, de Palmas, Tocantins.

 

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